sábado, 31 de maio de 2008

Etanol de Milho X de Cana

O Mundo debate a questão da produção dos Biocombustíveis afetarem a produção de alimentos, e um dos fatores que leva a esta questão é a produção de etanol a partir de fontes de alimento como o milho. Esta discussão levou a se cometer um erro de interpretação na capacidade de produção de etanol no Brasil sem afetar a produção de alimento.

Para tentar por fim a esse erro, vamos mostrar as diferenças entre a produção Americana e a Brasileira.

O translúcido e calórico álcool de milho produzido pelos americanos, da forma como é produzido, vêm beneficiando sobretudo alguns poucos fazendeiros e gigantes do agronegócio, como a Archer Daniels Midland e a Cargill, mas não se pode dizer o mesmo quanto ao ambiente. O cultivo de milho requer grandes quantidades de herbicidas e fertilizantes à base de nitrogênio e pode provocar mais erosão no solo do que qualquer outra cultura agrícola. A própria produção de etanol de milho consome uma quantidade considerável de combustível fóssil - justamente o que ele vem substituir. Por outro lado, os ambientalistas temem que o aumento dos preços deste produto acabe levando os agricultores a cultivar milhões de hectares de terras secundárias atualmente reservadas para a recuperação do solo e a conservação da fauna selvagem, potencialmente liberando ainda mais dióxido de carbono retido nos campos incultos.

O interesse elevou a tal ponto o preço do milho que os produtores americanos já se preparam para colher a maior safra desde a Segunda Guerra Mundial. Cerca de um quinto dela será destinado à produção de etanol - mais que o dobro do que se destinava cinco anos atrás. No entanto, tão grande é a sede por combustível entre os americanos, com seus utilitários esportivos beberrões, que, mesmo que toda a safra de milho e soja fosse transformada em biocombustível, ela substituiria apenas 12% da gasolina e 6% do óleo diesel consumidos no país.

Mesmo assim, a perspectiva de ondas douradas de plantações de combustível é atraente demais para ser ignorada. Os investidores embarcaram na nova tendência e aplicaram mais de 70 bilhões de dólares em empresas produtoras de energia renovável. O governo americano ofereceu subsídios consideráveis aos produtores de etanol, e o presidente Bush destinou mais de 200 milhões de dólares a pesquisas com o objetivo de substituir por etanol e outros combustíveis 15% do consumo previsto de gasolina nos Estados Unidos até o ano de 2017.

"Há o risco de produzirmos etanol de maneira incrivelmente burra", diz Nathanael Greene, do Conselho de Defesa dos Recursos Nacionais dos Estados Unidos. "Todos queremos um futuro repleto de fauna selvagem, carbono no solo e benefícios generalizados." A chave para isso, segundo Greene e outros cientistas, é descobrir como produzir combustível a partir de matéria vegetal que não serve de alimento: caules, gramíneas, árvores de crescimento rápido e até mesmo algas. Essa abordagem, combinada à opção por veículos que fazem uso de energia mais eficiente, "poderia eliminar a demanda por gasolina até 2050", afirma.

Em meados deste ano, com as 16 usinas de etanol de Nebraska se preparando para processar um terço da safra do estado, os preços do milho haviam dobrado e os agricultores estavam ansiosos para embolsar os lucros mais polpudos que tinham visto em toda a vida.

A despeito de todo esse entusiasmo, não é nada fácil encher o tanque do carro com etanol nos Estados Unidos. Ele continua sendo usado principalmente como aditivo à gasolina. Cerca de 1 200 postos concentrados na região produtora de milho, apenas, vendem o novo combustível na forma de E85, uma mistura de 85% de etanol e 15% de gasolina, útil só em motores especialmente projetados. O etanol tem rendimento 30% menor que o da gasolina, mas, como naquela área o galão (com 3,79 litros) custa cerca de 2,80 dólares, ele se mostra competitivo em relação à gasolina, vendida a 3,20 dólares.

Todo o processo libera também grande quantidade de dióxido de carbono, e é aí que o rótulo verde do etanol começa a ficar pardo. A maioria das usinas de etanol depende da queima de gás natural ou, cada vez mais, de carvão para gerar o vapor utilizado na destilação, adicionando emissões de combustíveis fósseis ao dióxido de carbono produzido pela levedura. O cultivo de milho requer ainda fertilizantes com nitrogênio, fabricados com gás natural, e o emprego intensivo de equipamentos agrícolas movidos a óleo diesel. Alguns estudos sobre o equilíbrio energético do etanol de milho - os quais estimam a quantidade de energia fóssil necessária para produzi-lo - apontam a irracionalidade do processo, que requer mais combustível fóssil emissor de carbono do que aquele que viria a substituir. Outros estudos, porém, indicam uma ligeira vantagem positiva. Entretanto, seja qual for o cálculo, o etanol de milho não representa nenhuma panacéia contra o efeito estufa.

Eles esperam tornar mais vantajosos o aproveitamento energético e a neutralização do efeito estufa por meio de um sistema de circuito fechado - e é aí que entram as vacas. A idéia é abastecer os aquecedores com o gás metano obtido em dois biodigestores gigantes, cada qual com capacidade de 15 milhões de litros, alimentados com o esterco recolhido na área dedicada ao gado - na verdade, usando biogás para produzir biocombustível.

É fácil perder a fé nos biocombustíveis quando se conhece apenas o etanol de milho. Um quadro mais animador encontra-se no Brasil, onde milhões de motoristas usam carros movido pelo álcool produzido nos canaviais do interior do país.

O Brasil vem usando algum tipo de etanol em veículos desde a década de 1920, mas a reviravolta ocorreu na década de 1970, época em que se importavam três quartos do petróleo consumido. Quando o choque do petróleo promovido pela Opep ameaçou a economia do país, o então presidente, general Ernesto Geisel, decidiu pôr um fim à dependência de petróleo importado. Geisel concedeu financiamentos para a construção de usinas de álcool, fez com que a estatal Petrobras instalasse bombas de álcool em seus postos por todo o país e ofereceu incentivos fiscais à indústria automobilística para que fabricasse veículos com motor adaptado ao uso do novo combustível. Até meados da década de 1980, parte dos carros vendidos no Brasil era abastecida exclusivamente com álcool.

Os motoristas brasileiros adotaram a novidade, sobretudo devido à elevada octanagem - cerca de 113 octanas - do álcool de cana. Isso significa que ele queima melhor a uma taxa de compressão mais alta que a da gasolina, conferindo maior potência aos motores adaptados. Com a vantagem adicional, proporcionada pelos subsídios oficiais, de custar bem menos.

Porém, a trajetória do álcool combustível no Brasil nem sempre foi tranqüila. No início dos anos 1990, a queda nos preços do petróleo levou o governo a cancelar os subsídios, e os altos preços do açúcar fizeram com que os usineiros não vissem vantagens em produzir o combustível. Milhões de proprietários de carros a álcool de repente ficaram presos a um combustível menos vantajoso que a gasolina.

Os motoristas perderam a confiança no programa do álcool. Uma década depois, quando os preços do petróleo subiram de novo, os brasileiros voltaram a se interessar pelo álcool, mas, dada a experiência anterior, não queriam ficar presos a uma única opção. Em 2003, a Volks lançou o primeiro carro TotalFlex no mercado nacional, introduzindo o sistema em um modelo básico, o Gol.

O sucesso foi imediato, e logo a concorrência estava vendendo veículos que rodavam com qualquer mistura de álcool e gasolina.

Atualmente, quase 85% dos carros novos vendidos no Brasil são do tipo flex: modelos pequenos e esportivos que circulam entre enormes e fumacentos caminhões a diesel. Com 1 litro de álcool custando em média 1 real menos que o litro de gasolina, a maioria desses veículos flex costuma ser abastecida com álcool.

A cana-de-açúcar, gramínea tropical de suco adocicado e rápido crescimento, é um dos principais produtos de exportação do Brasil desde o século 16. Ao contrário do que ocorre com o milho, no qual o amido contido no grão tem de ser transformado em açúcar com a ajuda de dispendiosas enzimas antes de ser fermentado, o próprio caule da cana-de-açúcar já é constituído por 20% de açúcar - e ela começa a fermentar logo depois de ser cortada. Um canavial produz de 5,7 mil a 7,6 mil litros de etanol por hectare, mais que o dobro do verificado com um milharal.

Os produtores conseguem realizar sete colheitas antes do replantio e as usinas reciclam e transformam em fertilizante a água que utilizam. A maioria das usinas brasileiras não usa combustível fóssil nem eletricidade da rede convencional: todas as suas necessidades energéticas são preenchidas com a queima do que resta da cana, o bagaço. Até mesmo os caminhões que transportam cana e máquinas agrícolas são movidos por uma mistura de diesel e etanol; e o mais utilizado avião pulverizador de colheitas, o pequeno modelo Ipanema, é a primeira aeronave de asa fixa projetada para voar com álcool puro.

Enquanto a vantagem energética do etanol de milho é quase nula 1 – 1,4, o de cana é de 1 – 8, ou seja, oito unidades de etanol para cada unidade de combustível fóssil usadas na produção, podendo ser elevada para 12 ou 13 unidades, com o uso dos biocombustiveis de 2ª geração. Segundo estimativas dos especialistas, a produção e a queima do álcool de cana geram cerca de 55% a 90% menos dióxido de carbono do que no caso da gasolina.

A cana-de-açúcar, porém, não está isenta de problemas. Existe uma tendência das usinas de usar o corte mecanizado, mas isso ainda não ocorre na maioria das áreas produtoras brasileiros, que recorrem à colheita manual - um trabalho pesado e opressivo. Todos os anos cortadores de cana morrem de exaustão, segundo líderes de sindicatos. Além disso, para matar as serpentes, facilitar o corte manual da cana e iniciar o processo de fermentação, costuma-se atear fogo aos canaviais antes da colheita, lançando fuligem na atmosfera e liberando metano e óxido nitroso, dois potentes gases que contribuem para o efeito estufa.

A expansão da área de cultivo de cana no Brasil - que deverá quase duplicar ao longo da próxima década. O que significa um aumento muito pequeno na área cultivada em relação às áreas disponíveis no Brasil.

Os implacáveis números relativos ao suprimento, ao aproveitamento energético e, sobretudo, ao preço para o consumidor final serão de importância crucial para o futuro do etanol e do biodiesel ao redor do planeta.

Em 2006, o biocombustível alimentava apenas 1% do transporte terrestre mundial, de acordo com a Agência Internacional de Energia. A estimativa é que o percentual se multiplique por oito até 2030. No Brasil, esta tendência é vista com ótimos olhos, pois representaria uma ótima oportunidade de crescimento.

No início de 2007, a área plantada de cana-de-açúcar no Brasil era de 7,04 milhões de hectares (mais de 78% na região centro-sul do país, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais - Inpe), dos quais 3 milhões de hectares para açúcar e 4 milhões de hectares para álcool. Se o aumento da demanda mundial se concretizar, estima-se que a área cresça 60% em 5 anos e ultrapasse os 10 milhões de hectares.

Segundo o IBGE, temos 152 milhões de hectares de área agricultável, dos quais são utilizados apenas 62 milhões de hectares. Ou seja, excluídos os 440 milhões de hectares de florestas nativas, ainda dispomos de 90 milhões de hectares para expandir a agricultura sem desmatamento. Apenas uma parte dessas áreas é adequada à cana e é econômica e socialmente viável para biocombustíveis, como álcool e biodiesel.

A área de cana-de-açucar brasileira tem crescido principalmente sobre terras degradadas, antes ocupadas pela bovinicultura. Pois, devemos ressaltar, que as áreas ocupadas com gado, hoje, no Brasil é de aproximadamente 220 milhões de hectares com um rebanho de aproximadamente 200 milhões de cabeças, dando uma ocupação (densidade) de 0,9 cabeças/ha de media nacional, o que é muito baixa. Em São Paulo, por exemplo, esta densidade já ultrapassa 1,2 cabeça/ha, sendo que em algumas regiões do estado chega a 1,8 cabeças/ha. Se a media nacional passar para 1,4 cabeça/ha, haveria, de imediato, uma liberação de mais de 40 milhões de ha de pastagens, ou seja, 8 vezes a área atual ocupada com cana para álcool, isso sem contar com os 90 milhões de hectares.

O mercado internacional crescerá se forem removidos os subsídios nos países ricos. Os EUA consomem um pouco mais de álcool automotivo que o Brasil, mas o percentual dele na gasolina é baixo. Seu consumo de gasolina é de 580 bilhões de litros por ano. Esse percentual deve aumentar para 20%. Considerando 1,3 litro de álcool para cada litro de gasolina, daria algo como 150 bilhões de litros ao ano de álcool, oito vezes mais do que a atual produção brasileira, de quase 18 bilhões de litros por ano. Levará um tempo para isso e o Brasil poderá exportar mais álcool, mas não é razoável tentar suprir todo esse mercado.



Para embasar a discução veja os proximos artigos:

  1. Biocombustíveis x alimentos (Impactos Negativos)

Fontes consultadas:

O sonho verde

Produzir combustíveis a partir de plantas pode ajudar o planeta - mas falta superar obstáculos.


A formula Indi, prova de automobilismo mais famosa dos Estados Unidos, deste ano deu um bom sinal da importância e alcance dos biocombustíveis para o mundo, com a vitória de Dario Franchitti com um carro abastecido apenas com etanol.

Para os entusiastas, tais fontes renováveis de energia poderiam reanimar a economia rural, diminuir a preocupante dependência de petróleo e - o melhor de tudo - reduzir a quantidade cada vez maior de dióxido de carbono que lançamos no ar. Ao contrário do carbono liberado pela queima de combustíveis fósseis, que vem elevando sem parar o termostato da Terra, o carbono dos biocombustíveis provém da atmosfera, de onde é capturado pelas plantas durante seu período de crescimento. Em teoria, portanto, a queima de de etanol poderia até mesmo zerar a conta de carbono.

O termo crucial aqui é "poderia". Os biocombustíveis, tais como são produzidos hoje nos Estados Unidos, vêm beneficiando sobretudo alguns poucos fazendeiros e gigantes do agronegócio, como a Archer Daniels Midland e a Cargill, mas não se pode dizer o mesmo quanto ao ambiente. O cultivo de milho requer grandes quantidades de herbicidas e fertilizantes à base de nitrogênio e pode provocar mais erosão no solo do que qualquer outra cultura agrícola. A própria produção de etanol de milho consome uma quantidade considerável de combustível fóssil - justamente o que ele vem substituir. A situação melhoria, apenas um pouco, com o biodiesel produzido a partir de grãos de soja. Por outro lado, os ambientalistas temem que o aumento dos preços de ambos os produtos acabe levando os agricultores a cultivar cerca de 14 milhões de hectares de terras secundárias atualmente reservadas para a recuperação do solo e a conservação da fauna selvagem, potencialmente liberando ainda mais dióxido de carbono retido nos campos incultos.

O interesse elevou a tal ponto o preço do milho que os produtores americanos já se preparam para colher a maior safra desde a Segunda Guerra Mundial. Cerca de um quinto dela será destinado à produção de etanol - mais que o dobro do que se destinava cinco anos atrás. No entanto, tão grande é a sede por combustível entre os americanos, com seus utilitários esportivos beberrões, que, mesmo que toda a safra de milho e soja fosse transformada em biocombustível, ela substituiria apenas 12% da gasolina e 6% do óleo diesel consumidos no país.

Mesmo assim, a perspectiva de ondas douradas de plantações de combustível é atraente demais para ser ignorada, sobretudo diante do exemplo do Brasil. Três décadas depois de lançarem um programa de emergência para substituir parte da gasolina consumida no país pelo álcool de cana-de-açúcar, as autoridades brasileiras anunciaram no ano passado que, graças ao álcool combustível e ao aumento da produção interna de petróleo, o país já não depende da importação de petróleo. Os investidores, seguindo o exemplo de executivos famosos, como Richard Branson, da Virgin Atlantic, e Vinod Khosla, da Sun Microsystems, embarcaram na nova tendência e aplicaram mais de 70 bilhões de dólares em empresas produtoras de energia renovável. O governo americano ofereceu subsídios consideráveis aos produtores de etanol, e o presidente Bush destinou mais de 200 milhões de dólares a pesquisas com o objetivo de substituir por etanol e outros combustíveis 15% do consumo previsto de gasolina nos Estados Unidos até o ano de 2017.

"Há o risco de produzirmos etanol de maneira incrivelmente burra", diz Nathanael Greene, do Conselho de Defesa dos Recursos Nacionais dos Estados Unidos. "Todos queremos um futuro repleto de fauna selvagem, carbono no solo e benefícios generalizados." A chave para isso, segundo Greene e outros cientistas, é descobrir como produzir combustível a partir de matéria vegetal que não serve de alimento: caules, gramíneas, árvores de crescimento rápido e até mesmo algas. Essa abordagem, combinada à opção por veículos que fazem uso de energia mais eficiente, "poderia eliminar a demanda por gasolina até 2050", afirma.

O Etanol americano é produzido a partir da moagem dos grãos de milho, misturados com água e aquecidos; em seguida, acrescentam-se enzimas para converter o amido em açúcares. Em um tanque de fermentação, a levedura transforma os açúcares em álcool, o qual é isolado da água por meio de destilação. O resíduo vira alimento para as vacas, e parte da água usada, com elevado teor de nitrogênio, é distribuída pelos campos como fertilizante.

Todo o processo libera também grande quantidade de dióxido de carbono, e é aí que o rótulo verde do etanol começa a ficar pardo. A maioria das usinas de etanol depende da queima de gás natural ou, cada vez mais, de carvão mineral para gerar o vapor utilizado na destilação, adicionando emissões de combustíveis fósseis ao dióxido de carbono produzido pela levedura. O cultivo de milho requer ainda fertilizantes com nitrogênio, fabricados com gás natural, e o emprego intensivo de equipamentos agrícolas movidos a óleo diesel. Alguns estudos sobre o equilíbrio energético do etanol de milho - os quais estimam a quantidade de energia fóssil necessária para produzi-lo - apontam a irracionalidade do processo, que requer mais combustível fóssil emissor de carbono do que aquele que viria a substituir. Outros estudos, porém, indicam uma ligeira vantagem positiva. Entretanto, seja qual for o cálculo, o etanol de milho não representa nenhuma panacéia contra o efeito estufa.

Eles esperam tornar mais vantajosos o aproveitamento energético e a neutralização do efeito estufa por meio de um sistema de circuito fechado - e é aí que entram as vacas. A idéia é abastecer os aquecedores com o gás metano obtido em dois biodigestores gigantes, cada qual com capacidade de 15 milhões de litros, alimentados com o esterco recolhido na área dedicada ao gado - na verdade, usando biogás para produzir biocombustível.

É fácil perder a fé nos biocombustíveis quando se conhece apenas o etanol de milho. Um quadro mais animador encontra-se no Brasil, onde milhões de motoristas usam carros movido pelo álcool produzido nos canaviais do interior do país.

O Brasil vem usando algum tipo de etanol em veículos desde a década de 1920, mas a reviravolta ocorreu na década de 1970, época em que se importavam três quartos do petróleo consumido. Quando o choque do petróleo promovido pela Opep ameaçou a economia do país, o então presidente, general Ernesto Geisel, decidiu pôr um fim à dependência de petróleo importado. Geisel concedeu financiamentos para a construção de usinas de álcool, fez com que a estatal Petrobras instalasse bombas de álcool em seus postos por todo o país e ofereceu incentivos fiscais à indústria automobilística para que fabricasse veículos com motor adaptado ao uso do novo combustível. Até meados da década de 1980, parte dos carros vendidos no Brasil era abastecida exclusivamente com álcool.

Os motoristas brasileiros adotaram a novidade, sobretudo devido à elevada octanagem - cerca de 113 octanas - do álcool de cana. Isso significa que ele queima melhor a uma taxa de compressão mais alta que a da gasolina, conferindo maior potência aos motores adaptados. Com a vantagem adicional, proporcionada pelos subsídios oficiais, de custar bem menos.

Porém, a trajetória do álcool combustível no Brasil nem sempre foi tranqüila. No início dos anos 1990, a queda nos preços do petróleo levou o governo a cancelar os subsídios, e os altos preços do açúcar fizeram com que os usineiros não vissem vantagens em produzir o combustível. Milhões de proprietários de carros a álcool de repente ficaram presos a um combustível menos vantajoso que a gasolina.

Os motoristas perderam a confiança no programa do álcool. Uma década depois, quando os preços do petróleo subiram de novo, os brasileiros voltaram a se interessar pelo álcool, mas, dada a experiência anterior, não queriam ficar presos a uma única opção. Em 2003, a Volks lançou o primeiro carro TotalFlex no mercado nacional, introduzindo o sistema em um modelo básico, o Gol.

O sucesso foi imediato, e logo a concorrência estava vendendo veículos que rodavam com qualquer mistura de álcool e gasolina.

Atualmente, quase 85% dos carros novos vendidos no Brasil são do tipo flex: modelos pequenos e esportivos que circulam entre enormes e fumacentos caminhões a diesel. Com 1 litro de álcool custando em média 1 real menos que o litro de gasolina, a maioria desses veículos flex costuma ser abastecida com álcool.

A cana-de-açúcar, gramínea tropical de suco adocicado e rápido crescimento, é um dos principais produtos de exportação do Brasil desde o século 16. Ao contrário do que ocorre com o milho, no qual o amido contido no grão tem de ser transformado em açúcar com a ajuda de dispendiosas enzimas antes de ser fermentado, o próprio caule da cana-de-açúcar já é constituído por 20% de açúcar - e ela começa a fermentar logo depois de ser cortada. Um canavial produz de 5,7 mil a 7,6 mil litros de etanol por hectare, mais que o dobro do verificado com um milharal.

Os produtores conseguem realizar sete colheitas antes do replantio e as usinas reciclam e transformam em fertilizante a água que utilizam. A maioria das usinas brasileiras não usa combustível fóssil nem eletricidade da rede convencional: todas as suas necessidades energéticas são preenchidas com a queima do que resta da cana, o bagaço. Até mesmo os caminhões que transportam cana e máquinas agrícolas são movidos por uma mistura de diesel e etanol; e o mais utilizado avião pulverizador de colheitas, o pequeno modelo Ipanema, é a primeira aeronave de asa fixa projetada para voar com álcool puro.

Enquanto a vantagem energética do etanol de milho é quase nula 1 – 1,4, o de cana é de 1 – 8, ou seja, oito unidades de etanol para cada unidade de combustível fóssil usadas na produção, podendo ser elevada para 12 ou 13 unidades, com o uso dos biocombustiveis de 2ª geração. Segundo estimativas dos especialistas, a produção e a queima do álcool de cana geram cerca de 55% a 90% menos dióxido de carbono do que no caso da gasolina.

A cana-de-açúcar, porém, não está isenta de problemas. Existe uma tendência das usinas em usar o corte mecanizado, mas isso ainda não ocorre na maioria das áreas produtoras brasileiros, que recorrem à colheita manual - um trabalho pesado e opressivo. Todos os anos cortadores de cana morrem de exaustão, segundo líderes de sindicatos. Além disso, para matar as serpentes, facilitar o corte manual da cana e iniciar o processo de fermentação, costuma-se atear fogo aos canaviais antes da colheita, lançando fuligem na atmosfera e liberando metano e óxido nitroso, dois potentes gases que contribuem para o efeito estufa.

A expansão da área de cultivo de cana no Brasil - que deverá quase duplicar ao longo da próxima década. O que significa um aumento muito pequeno na área cultivada em relação às áreas disponíveis no Brasil.

Os implacáveis números relativos ao suprimento, ao aproveitamento energético e, sobretudo, ao preço para o consumidor final serão de importância crucial para o futuro do etanol e do biodiesel ao redor do planeta.

O fascínio pelos combustíveis vegetais parece ter chegado aos desertos ricos em petróleo do Oriente Médio. Os Emirados Árabes Unidos destinaram 250 milhões de dólares a um programa de pesquisa de energia renovável que inclui os biocombustíveis - talvez um sinal de que até os xeques começam a se dar conta de que a era do petróleo não vai durar para sempre.

Os implacáveis números relativos ao suprimento, ao aproveitamento energético e, sobretudo, ao preço para o consumidor final serão de importância crucial para o futuro do etanol e do biodiesel ao redor do planeta.

Os entusiastas do etanol lembram que o setor petroleiro se beneficiou de subsídios imensos durante décadas, incluindo bilhões de dólares por ano de renúncia fiscal, assim como dezenas de bilhões de dólares empregados todos os anos na defesa dos campos petrolíferos no Oriente Médio - antes mesmo da guerra no Iraque. E isso sem falar nos incalculáveis prejuízos à saúde das pessoas e ao ambiente ocasionados pela poluição gerada por automóveis, caminhões e refinarias.

Veja a Materia Completa aqui

Fonte:

O Brasil permanecerá como 2º maior produtor de etanol até 2017

A Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) e a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) estimam que a produção de etanol no Brasil aumentará em 135,3% entre 2007 e 2017. Com isso, o país passaria dos 17 bilhões de litros gerados no ano passado para 40 bilhões, tornando-se assim o segundo maior produtor do mundo.

De acordo com essa pesquisa, em 2008, o volume produzido no país deve chegar a 22 bilhões de litros. As estimativas apontam que a produção mundial de etanol atingirá 125 bilhões de litros em 2017, o dobro do volume em 2007.

A avaliação aponta ainda que os americanos continuarão sendo os maiores produtores, passando de 21 bilhões de litros em 2007 para 52 bilhões em 2017. Já o Brasil deve elevar em 75% a área plantada com cana-de-açúcar, o que garantiria ao país parte do abastecimento de biocombustíveis aos americanos e europeus.

Estima-se que a produção mundial do etanol dobrará em dez anos, mas as entidades apelam para que os subsídios e as barreiras dos países ricos ao comércio de etanol sejam retirados para evitar o impacto negativo no mercado de alimentos.

As entidades ainda alertam que os países ricos estariam distorcendo o mercado de alimentos com suas políticas ao setor e afirmam que o etanol teria benefícios ambientais, energéticos e econômicos “bem mais modestos que o que se imaginava”.

Combinação antiga pode aumentar a produção de etanol

A combinação de Crustáceos e Álcool, muito apreciada em nosso litoral, pode ajudar o Brasil a aumentar a produção de etanol.


Um estudo desenvolvido por pesquisadores do Parque de Desenvolvimento Tecnológico - Padetec da Universidade Federal do Ceará, pode aumentar a produção de etanol no Brasil.

A pesquisa, coordenada pelo professor Afrânio Aragão Craveiro, utiliza organismos obtidos a partir de carapaças de crustáceos, que atuam no processo de fermentação do caldo de cana, aumentando o seu rendimento.

Otimista com o estudo, o professor afirmou que o país vai aumentar a produção em cerca de 800 milhões de litros anuais, sem precisar expandir as terras para plantio. “Se tudo correr dentro do previsto, o Brasil poderá aumentar em 5% a produção nacional de etanol sem a necessidade de adicionar novas terras ao cultivo, o que daria aí alguns bilhões de dólares, em função de que o Brasil, atualmente, produz 16 bilhões de litros de álcool”, disse.

O objetivo do estudo é aumentar a eficiência da fermentação do etanol por meio da chamada imobilização das leveduras. O material utilizado é o biopolímero quitosana, um derivado da quitina, que é um dos constituintes da carapaça dos crustáceos. Craveiro explicou que ao usar carapaças de camarão, lagosta e caranguejo, consideradas fonte de poluição ambiental estamos ajudando transformando e preservando do meio ambiente. “Nós estamos transformando aquilo que é lixo e poluente em um produto de alto valor agregado e benéfico para o país. É transformar lixo em lucro”, disse.

O projeto conta com apoio financeiro de R$ 1,4 milhão do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social e está previsto para entrar em operação em julho deste ano. De acordo com o professor Aragão Craveiro, o compromisso assumido com o BNDES para a concessão do financiamento é que essa tecnologia ficará disponível a quem estiver interessado em adquiri-la.

O processo industrial deverá ser utilizado, inicialmente, pela Polymar Ciência e Nutrição S/A, uma empresa de base tecnológica, criada e incubada no Padetec em 1997 e que hoje funciona em sede própria nas proximidades do Distrito Industrial de Fortaleza, onde produz os biopolímeros quitina e quitosana, obtidos a partir de carapaças de camarão, lagosta e caranguejo, através de tecnologia inovadora já registrada e patenteada.



Fonte:

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Brasil permanecerá como maior produtor e exportador de etanol e cana nos próximos dez anos

O Brasil é e permanecerá como maior produtor e exportador de etanol e cana de açúcar, o que permitirá que determine os preços mundiais em 2017.

A participação da cana-de-açúcar destinada à fabricação do biocombustível brasileiro passará de 51% em média, durante o período 2005-2007, para 66% nos próximos dez anos. Os dados fazem parte do relatório da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) divulgado nesta quarta-feira.

Segundo o documento, a participação do Brasil nas exportações mundiais de oleaginosas deve crescer dos atuais 30% para 40% em 2017, quando o país vai facilmente ultrapassar os Estados Unidos como maior vendedor desses produtos no mundo.

O relatório prevê ainda que, graças à esperada alta de preços, haverá uma realocação de terras para o plantio de grãos mais rentáveis. Áreas antes destinadas a pastagens e novas técnicas agrícolas permitirão ao mundo ampliar sua produção de oleaginosas em 28% até 2017. A maior parte dessa expansão, segundo o estudo, será concentrada em Brasil, Estados Unidos e Argentina.

Em 2017, a China será o segundo maior importador de óleos vegetais, atrás apenas dos Estados Unidos. A indústria de esmagamento de grãos chinesa deve crescer em média 3,5% ao ano daqui para frente, num ritmo um pouco mais lento do que os 8,5% anuais registrados nos últimos dez anos.

Ainda citando o Brasil, o relatório afirma que, graças a sua abundância de terras, à disponibilidade de capital e de tecnologia, o país deverá responder por 30% das exportações mundiais de carne em 2017

"Com o comércio internacional se recuperando de recentes episódios de problemas sanitários neste mercado, um pequeno número de grandes exportadores (de carnes) de Estados Unidos, Canadá, Argentina, Austrália e Brasil continuaram dominantes neste mercado".

Pelas projeções do relatório, a produção mundial de carnes deve crescer em média 2% ao ano, apesar da alta de custos, provocada pela disparada dos preços de soja e milho, que servem como ração animal. Em média, segundo dados do Departamento Agrícola americano, para cada quilo de carne de frango, são necessários 2,6 quilos de ração. No caso dos suínos, a relação é de 6,5 quilos de ração para um quilo de carne. E, nos bovinos, de 7 para 1.

Alta dos alimentos virá da pressão dos biocombustíveis

Um terço da alta dos produtos agrícolas esperada para o período de 2008-2017 em relação aos dez anos anteriores virá da pressão dos biocombustíveis.

"A maior parte do consumo de biocombustíveis na OCDE é reflexo dos subsídios que recebem", diz o relatório. Tanto o secretário-geral da OCDE, Ángel Gurría, como o diretor-geral da FAO, Jacques Diouf, criticaram as atuais políticas de subsídios de biocombustíveis e pediram uma mudança de orientação.

Gurría argumentou que os dispositivos atuais não servem para cumprir os objetivos que os países ricos estabeleceram com suas políticas de ajuda aos biocombustíveis.
- O rápido aumento da demanda de biocombustíveis, amplamente gerada pelas políticas, necessita de uma revisão - acrescentou antes de apostar que ´enfoques alternativos oferecem maiores benefícios´.

Ele citou, em particular, os apelos para reduzir a demanda energética e as emissões causadores do efeito estufa, suprimir aos entraves ao comércio de biocombustíveis e acelerar o desenvolvimento de uma segunda geração destes, que não utilizem produtos alimentícios.

O secretário-geral da FAO, por sua vez, advertiu que a produção de biocombustíveis vai dobrar entre 2008 e 2017 e, como conseqüência, ´as pressões sobre a agricultura vão aumentar´. Segundo ele, os países em desenvolvimento enfrentam ´políticas de distorção´ praticadas no mundo rico e que afetaram os preços dos alimentos, insistindo que não se pode repetir com os biocombustíveis ´os erros do passado´.

Preços altos

Ainda de acordo com o relatório da OCDE, os preços dos produtos agrícolas vão recuar progressivamente nos próximos dez anos, mas continuarão entre 10% e 50% acima dos valores da década passada. ,No caso de óleos vegetais, ressalta o texto, a alta pode chegar a 80%. Isso empurrará milhões de pessoas para a fome e a desnutrição, requerendo ajuda humanitária urgente.

Na terça-feira, a FAO reúne em Roma 40 chefes de Estado e de governo, entre eles o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, para discutir a crise alimentar no mundo e medidas de emergência. Um dos temas são os biocombustíveis.

Fonte: O Globo

O cenário do etanol

Os biocombustíveis, entre eles o etanol, ainda são pouco representativos no mundo, mas a perspectiva é que sua importância cresça com novos avanços na tecnologia de produção e mais investimentos, como os projetos bilionários recentemente anunciados

A MATRIZ DE ENERGIA
(participação de cada fonte no total do consumo)



PERSPECTIVAS DA PRODUÇÃO



AVANÇOS NA TECNOLOGIA DE PRODUÇÃO

Cana transgênica
Embrapa e empresas privadas, como CTCe Alellyx, estão na corrida para obter a versão modificada geneticamente. Há pesquisas de variedades que resistam à seca e a pragas. Nenhuma versão transgênica por ora foi provada comercialmente

Etanol de celulose
Pertence à segunda geração do biocombustível. Poderá ser produzido com diferentes tipos de biomassa, como palha de milho, lascas de madeira, capim e bagaço de cana. Mas a tecnologia ainda não é viável em escala comercial

Diesel de cana
Aempresa de biotecnologia americana Amyris criou um diesel de cana com as propriedades do diesel de petróleo. Em parceria com o grupo Santelisa Vale, a Amyris vai produzir o novo combustível de cana no Brasil

PROJETOS BILIONÁRIOS
- A BP, antiga British Petroleum, fechou parceria com a Santelisa Vale e o grupo Maeda para a construção de duas usinas de etanol, um investimento de 1 bilhão de dólares. É a primeira vez que uma petrolífera estrangeira investe no etanol brasileiro.

- A Cosan, maior empresa do setor sucroalcooleiro do país, comprou por 1 bilhão de dólares a distribuidora de combustíveis Esso no Brasil.A companhia será a primeira produtora de etanol 100% verticalizada, da produção de cana à venda no posto.

- Quatro projetos de alcooldutos foram anunciados neste ano. Dois deles contam com a participação da Petrobras. Um terceiro é uma união entre Cosan, Copersucar e Crystalsev. A Brenco planeja.

Fontes: Agência Internacional de Energia, Hart's World Refining and Fuels Service e Única

* Vários autores Revista Exame - 07/05/2008
* Por Fabiane Stefano, Samantha Lima e Sérgio Teixeira Jr.

http://planetasustentavel.abril.uol.com.br/noticia/energia/conteudo_279437.shtml

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Ele é o falso vilão

Acusado de reduzir a oferta de comida no planeta, o etanol brasileiro estimula o plantio de alimentos.

Até pouco tempo atrás, o Brasil só recebia elogios por seu revolucionário programa de uso do álcool feito de cana-de-açúcar para o abastecimento de carros. Não sem motivos.

Especialistas viam o combustível verde como a salvação da lavoura num cenário de aquecimento global, de perspectiva de escassez dos combustíveis de origem fóssil e de instabilidade política nos países produtores de petróleo. Hoje, com a ajuda da tecnologia dos motores movidos a bicombustíveis, o consumo de etanol já é maior do que o de gasolina no país, algo que não ocorria desde os anos 80, no auge do Proálcool. De um mês para cá, no entanto, o jogo começou a se inverter. O etanol transformou-se no vilão do encarecimento mundial de alimentos. Isso porque, segundo seus críticos, o uso de terras férteis para produzi-lo reduz a área destinada às culturas tradicionais de grãos, como arroz e trigo. Essa suposição fez o relator especial da ONU para o Direito à Alimentação, o suíço Jean Ziegler, classificar a produção de biocombustíveis de crime contra a humanidade, ataque reforçado por Robert Zoellick, presidente do Banco Mundial. Segundo Zoellick, enquanto alguns estão preocupados em encher o tanque de seus carros, "muitos ao redor do mundo se debatem para forrar o estômago, e isso fica mais difícil a cada dia".
A súbita ofensiva contra o etanol motivou uma forte e correta reação do governo brasileiro. Em discursos pronunciados na semana passada, o presidente Lula classificou as críticas de Ziegler e Zoellick de "falácias" abastecidas com motivos comerciais. Segundo Lula, o encarecimento dos alimentos deve-se, na verdade, aos subsídios agrícolas de americanos e europeus, "uma droga que entorpece e vicia seus próprios produtores", e o problema do álcool combustível se restringe ao etanol de milho produzido nos Estados Unidos. "Não é recomendável produzir álcool de milho, ainda mais quando esse milho é subsidiado. Seria muito mais lógico que os Estados Unidos fizessem parcerias com países da América Central e do Caribe para produzir uma parte do etanol de que os Estados Unidos precisam", disse o presidente. A gritaria do governo brasileiro tem razão de ser. Plantando cana-de-açúcar para produzir álcool em 1% de seus solos aráveis, o Brasil consegue produzir mais da metade de todo o combustível que necessita para abastecer os seus automóveis. Além disso, os canaviais vêm avançando principalmente sobre áreas degradadas de pastagem e não concorrem com a produção de alimentos. Os Estados Unidos, por outro lado, já consomem 4% de suas terras com o plantio do milho destinado à produção de álcool, o que não representa nem 2% do total de combustíveis usado pelos carros do país. Um hectare de milho plantado rende apenas 3 000 litros de etanol. Já com a cana, na mesma área chega-se a 7 500 litros de etanol.

A ironia maior, no entanto, é que, no Brasil, o avanço dos canaviais até ajuda a aumentar a produção de alimentos. Isso ocorre porque o plantio de cana-de-açúcar requer rotatividade de culturas. Assim, 15% das áreas de canaviais são renovadas com outras lavouras, como a de feijão e a de soja. "Com a cultura da cana avançando nas pastagens, a oferta de alimentos aumenta, e não diminui", diz o ex-ministro da agricultura Roberto Rodrigues. Tanto é assim que, neste ano, o país baterá um novo recorde na produção de grãos. De resto, o Brasil chega a utilizar 20% de suas áreas agricultáveis. Há muita terra a ser explorada, sem derrubar uma árvore de floresta nativa. Considerando-se ainda os ganhos de produtividade, o país poderia tranqüilamente multiplicar a produção de alimentos e etanol nos próximos anos, sem que uma cultura tenha de roubar o espaço das demais. Nos Estados Unidos, no entanto, o produtor de milho recebe subsídio para fabricar biocombustível, o que despertou uma corrida entre os fazendeiros americanos. Resultado: o incentivo fez diminuir o espaço de outras plantações e aumentar o preço dos alimentos. A projeção é que, nos Estados Unidos, neste ano, 30% da produção de milho vire etanol, 170% a mais que há quatro anos. "Não podemos confundir as coisas e cair numa falsa polêmica. Existe assimetria entre oferta e demanda de alimentos no mundo, que é o que causa o aumento do preço da comida. Mas isso não tem nada a ver como o etanol brasileiro", afirma Roberto Rodrigues.

Felizmente, a despeito das críticas lá fora, a indústria de açúcar e álcool segue de vento em popa no Brasil. Apenas na semana passada, o país viu o anúncio de dois grandes negócios nesse setor. Na quinta-feira 24, a Cosan, maior produtora de álcool e açúcar do Brasil, divulgou a compra das operações da Esso no Brasil por cerca de 900 milhões de dólares. A empresa derrotou assim a Petrobras, que também estava de olho na Esso, e terá acesso a um importante canal distribuidor. Isso porque as usinas de álcool são proibidas de vender diretamente o combustível. Por lei, precisam utilizar as distribuidoras como intermediárias. "Esse negócio representa mais um passo na profissionalização do setor", afirma Luiz Henrique Sanchez, consultor na área de petróleo e energia. Ainda na semana passada, a gigante britânica de energia BP noticiou a compra de metade da Tropical Bioenergia, hoje pertencente aos grupos brasileiros Santelisa Vale e Maeda. A BP dá assim seu pontapé inicial na produção de etanol. Em outro negócio promissor, a Crystalsev, que comercializa álcool e açúcar no Brasil, informou que se associará à americana Amyris, empresa de biotecnologia do Vale do Silício, para produzir biodiesel no Brasil a partir de 2010.

Esses negócios retratam a fome do mundo corporativo pelo etanol brasileiro - que, ao contrário das críticas recentes, não ameaça a produção de alimentos. A causa do problema está em outro lugar. O mundo enriqueceu nos últimos anos, fazendo com que milhões de pessoas deixassem a miséria e passassem a se alimentar melhor. A produção de comida, porém, não avançou no mesmo ritmo, causando um descompasso entre a oferta e o consumo. A inflação fugiu do controle em vários países. O preço do trigo no mercado internacional já subiu 130% no último ano, o que levou a Argentina a proibir a exportação do produto - má notícia para o Brasil, pois 70% do trigo usado aqui vem do país vizinho. Mas o cereal mais demandado atualmente é o arroz, cujo preço subiu 60% em apenas três meses. Países como China, Vietnã, Camboja e Indonésia deixaram de exportá-lo. O Brasil cogita fazer o mesmo.

A tentativa de vincular o etanol à crise dos alimentos exemplifica o fardo político que o Brasil terá de carregar por ter se consolidado como maior exportador agrícola do mundo em desenvolvimento. Caberá ao governo brasileiro - e também aos empresários do setor - convencer o mundo de que, nessa história, o Brasil não é o vilão. É o ônus da liderança.

A raiz do dilema
Os biocombustíveis inibem a produção de alimentos nos Estados Unidos, onde a produção do etanol já utiliza um terço da área plantada de milho. No Brasil, apenas 1% da área agricultável é utilizada para produzir o combustível da cana-de-açúcar

Clique e veja os infográficos:

Petrobras: alcoolduto deve entrar em operação em 2009

O presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, disse nesta segunda-feira (26/05) que a empresa pretende operar o seu primeiro alcoolduto até o final de 2009. O projeto mais avançado é o que liga os municípios de Senador Cañedo (GO) e Paulínia (SP), com 1.150 km de extensão e um custo aproximado de US$ 1 bilhão.

O objetivo é escoar a produção de etanol da região Centro-Oeste, passando pela cidade mineira de Uberaba e as paulistas Ribeirão Preto e Guararema. Dessa última, o duto seguirá para São Sebastião, no litoral norte de São Paulo, e daí para o terminal de Ilha d'Água, no Rio de Janeiro.

"Estamos fazendo várias etapas desse alcoolduto e acreditamos que as primeiras devem estar em operação no final de 2009", previu Gabrielli, durante cerimônia de lançamento do Programa de Modernização e Expansão da Frota e de Embarcações de Apoio e da segunda fase do Programa de Modernização da Frota de Petroleiros.

A solenidade foi em Niterói (RJ) e contou com a presença do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva.

"A Petrobras tem uma posição muito clara de ser um grande player internacional na comercialização e na logística de etanol. Com isso, estamos montando programas de exportação, principalmente para o Japão, criando cadeias de logísticas para levar o produto das áreas novas para os portos, em projetos de dois grandes alcooldutos", disse Gabrielli.

O projeto, cuja execução ficará sob a responsabilidade da Petrobras, inclui ainda um segundo trecho que ligará a hidrovia Tietê-Paraná ao terminal de Paulínia. A iniciativa é baseada em um acordo firmado em fevereiro deste ano entre a estatal brasileira, a empresa japonesa Mitsui e a brasileira Camargo Corrêa, que resultou na criação da empresa PMCC Projetos de Transporte Álcool S.A. que realizará as fases do projeto conceitual e básico do alcoolduto.

De acordo com seu Plano de Negócios, a Petrobras pretende investir até 2012 aproximadamente US$ 700 milhões em projetos e infra-estrutura para exportação de um volume de 4,7 bilhões de litros de etanol.

Entre Guararema e Paulínia, o alcoolduto terá capacidade de escoar até 12 milhões de metros cúbicos de etanol por ano. Desse total, cerca de 4 milhões de metros cúbicos serão escoados pelo terminal da Ilha d'Água e aproximadamente 8 milhões, pelo de São Sebastião.

Há também um outro projeto de alcoolduto, de 920 km de extensão, saindo de Campo Grande (MS) até o Porto de Paranaguá (PR). Em março deste ano, o ministro de Minas e Energia, Édison Lobão, anunciou que um grupo de estudos, formado por técnicos da Petrobras e dos estados do Mato Grosso do Sul e do Paraná, ficou encarregado de fazer a análise prévia da viabilidade financeira, o traçado do duto, levantamento dos volumes de produção de álcool na região, o impacto ambiental da obra e o orçamento do empreendimento. O prazo de conclusão do relatório era de 90 dias, o que significa o mês de junho.

Segundo informações da Petrobras, a empresa pretende ampliar sua atuação no negócio etanol, participando da cadeia produtiva nacional para o desenvolvimento de mercados internacionais, com foco em logística e comercialização. Para isso, a companhia participará (de forma minoritária) de associações em novas plantas de etanol para exportação, como forma de obter a garantia do fornecimento do produto.

A companhia também vai priorizar investimentos em pesquisa e desenvolvimento na segunda geração tecnológica de etanol, baseada nos estudos realizados pelo Centro de Pesquisas da Petrobras com a lignocelulose (produção de álcool a partir da celulose).

O Brasil é dono da segunda posição mundial em produção de etanol. São 22 bilhões de litros produzidos anualmente.

Fonte:

Cana: da competitividade à sustentabilidade

Tornar-se competitiva, foi o grande desafio da indústria sucroalcooleira nos últimos 30 anos. A elevação média de produtividade à taxa de 3,7%/ano resultou de investimentos continuados em pesquisa, apesar da insistência de que o etanol não era competitivo com a gasolina. Mas o tempo demonstrou a competitividade empresarial do etanol, cujo custo médio de produção é de US$ 1,6 por galão, contra US$ 2,8 do galão de gasolina no mercado livre.

Vencido o desafio da competitividade, resta o da sustentabilidade, do ponto de vista social, ambiental e econômico. Cabe-nos enfrentar uma batalha acirrada contra o etanol no âmbito midiático, onde não faltam matérias comprometidas por vieses e relatórios controversos. Questiona-se o tratamento ao trabalhador rural e o uso da terra.

O trabalhador rural da cana é o mais bem pago e o cultivo ocupa apenas 7,8 milhões de hectares no Brasil, dos quais 4,4 milhões para álcool. É muito menos que os 24,5 milhões de hectares ocupados com soja, os 12 milhões hectares com milho, e os 211 milhões com pastagens. É verdade também que a cana avança lentamente sobre pastagens degradadas. Mas esses argumentos não bastam, e nossos interlocutores estão cansados de mapas mostrando que o cultivo da cana está a 2500 km da Amazônia. Colocam em questão, os impactos do uso do solo. A pastagem substituída pela cana não estaria levando a fronteira agrícola, e as pastagens, para a Amazônia? Temos de nos preparar para esse argumento. A resposta é "não", mas exige comprovação.

A taxa de ocupação da pecuária, de 0,8 cabeça/ha é muito baixa. Porém, São Paulo já ultrapassa 1,2 cabeça/ha. Um aumento de 50% basta para liberar mais de 70 milhões de ha de pastagens, quase 16 vezes a área atual ocupada com cana para álcool. Há casos em que se usa o bagaço excedente para alimentação animal no período crítico de seca, com capacidade de engorda superior comparada à pastagem.

O Consenso de Biocombustíveis Sustentáveis, concluído em março por 17 pesquisadores independentes de 12 países, reunidos no Centro de Bellagio, Itália, da Fundação Rockefeller desmistifica várias bobagens. E recomenda a formuladores de políticas energéticas a produção e uso de biocombustíveis de forma sustentável.

Acusações ao etanol de cana produzido segundo o modelo brasileiro não se sustentam. Em nível global, a acusação de que biocombustíveis incrementam o preço dos alimentos pede melhor análise. Dos 13,2 bilhões de hectares de terras no mundo, 1,5 bilhão hectares são ocupados pela agricultura e 3,5 bilhões com pastagens para a produção de carne, leite e lã. Biomassa para biocombustíveis ocupa apenas 0,025 bilhão ha; no Brasil, 0,0044 bilhão ha.

Claro que o etanol de milho ou de trigo produzido nos EUA e na Europa impacta o preço dessas commodities, mas não é o único fator. Investimentos especulativos, condições climáticas adversas em regiões produtoras importantes (China, Índia e Austrália) e o aumento na demanda por alimentos (China e Índia) são fatores bem mais relevantes. Desta forma, tanto no Brasil como no resto do mundo, o desafio deixa de ser a conquista da competitividade, já obtida, para a conquista ou comprovação da sustentabilidade.

Fonte: Gazeta Mercantil

quarta-feira, 21 de maio de 2008

70 questões para entender o etanol

Guia para tirar todas, ou quase todas, suas dúvidas sobre o combustível da moda

O barril de petróleo bateu em 127 dólares na semana passada. O consumo mundial chegou a 1.000 barris por segundo. A combinação desses dois números é o melhor indicador de que a busca por combustíveis alternativos deixou de ser uma atividade pitoresca para se elevar ao centro das atenções das empresas, dos governos e das instituições internacionais.

Entre todos os combustíveis alternativos, o mais viável atualmente, do ponto de vista econômico e ambiental, é o etanol. Entre todos os tipos de etanol, o de cana-de-açúcar é o que tem maiores chances de participar substancialmente da matriz energética planetária.

Entre todos os países produtores de etanol, o Brasil é aquele que apresenta as melhores condições geográficas, climáticas, culturais, econômicas e tecnológicas para liderar a produção do etanol, nome pelo qual é mais chamado hoje no planeta o álcool combustível, velho conhecido dos brasileiros desde a iniciativa pioneira dos anos 70, desencadeada pela primeira crise do petróleo.

Desde seu ressurgimento meteórico no cenário mundial, o álcool/etanol tornou-se alvo de todo tipo de especulação, sendo motivo de projeções nacionalistas gloriosas. Foi motivo também de outro tipo de especulação, muito mais pessimista: para manter a frota global de carros rodando, o planeta seria obrigado a abandonar o cultivo de alimentos para plantar cana-de-açúcar e produzir etanol.

Veja aqui o gráfico sobre o ciclo do etanol

Para colocar a questão do etanol na perspectiva correta, VEJA organizou o questionário das páginas seguintes. São setenta perguntas e respostas que cobrem todas as principais questões levantadas pela entrada do etanol no foco dos holofotes.

Nessa tarefa, VEJA valeu-se de inúmeras fontes e teve o privilégio de contar com a dedicação especial de um dos maiores especialistas no assunto, Luiz Augusto Horta Nogueira, engenheiro mecânico e doutor pela Universidade Estadual de Campinas. Nogueira é pioneiro nos estudos que levaram à criação da área de biocombustíveis da Agência Nacional do Petróleo, da qual foi diretor de 1998 a 2004.

Hoje é professor titular do Instituto de Recursos Naturais da Universidade Federal de Itajubá e consultor para bioenergias de diversos órgãos internacionais, entre eles o Banco Mundial e a FAO, a divisão de agricultura e alimentação das Nações Unidas.

O Guia:

  1. INTRODUÇÃO
  2. PANORAMA
  3. CONSUMIDOR
  4. MEIO AMBIENTE
  5. IMPACTO SOCIAL
  6. TECNOLOGIA
  7. O CAMPEÃO EM NÚMEROS



Fonte:

Comissão Européia aprova fim dos subsídios ao etanol

A Comissão Européia, órgão executivo da União Européia (UE), aprovou nesta terça-feira (20) o fim dos subsídios ao etanol, criados em 2003. Contudo, em uma mensagem ao Brasil e aos Estados Unidos, Bruxelas também deixou claro que irá insistir em critérios duros para a entrada no mercado europeu de biocombustíveis que não respeitem o meio ambiente e aspectos sociais. A UE ainda quer evitar importar etanol que esteja contribuindo para uma distorção no fornecimento de alimentos.

A comissária de Agricultura da UE, Mariann Fischer Boel, conseguiu que sua proposta para acabar com a ajuda de 45 euros por hectare plantado fosse aceita pelo braço executivo do bloco.

Agora, precisará ter o voto dos 27 países membros da UE para que a decisão seja implementada. No total, o bloco gastou pelo menos 90 milhões de euros apenas nesse programa. Na avaliação da comissária, o etanol é parte da solução energética da Europa.

O dinheiro liberado agora será utilizado para financiar pesquisas no desenvolvimento da segunda geração de biocombustíveis, que teriam um impacto ambiental menor. Para a UE, um motivo estratégico para o uso do etanol é acabar com a dependência na importação do petróleo.

Alimentos

Em uma estratégia divulgada hoje pela UE para lidar com a alta dos preços dos alimentos, Bruxelas voltou a defender o etanol europeu e isentou o combustível de estar causando a inflação. "No setor de transporte hoje, a única alternativa ao petróleo é o biocombustível", afirmou a UE.

Segundo o bloco, apenas 1% do cereal produzido na UE vai para o biocombustível, o que não explicaria as altas de preços. Os europeus, porém, alertam que os incentivos dados nos Estados Unidos para o etanol de milho teve um papel no encarecimento do alimento.

Já a meta de 10% dos carros movidos a etanol até 2020 teria um impacto também na Europa. Os preços dos cereais aumentariam entre 3% e 6% e outros produtos poderiam aumentar em até 15%. Por isso, a UE pede que a expansão do etanol tanto na Europa como no resto do mundo ocorra com o uso "responsável de terras".

Fonte:

Da Agência

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Diversos sobre Etanol

O tema "etanol" segue na pauta. Impõe-se a leitura. Há opiniões para todos os lados: a favor, contra e os que são "nem tanto...". Selecionei alguns textos que li essa semana. Leiam. Afinal, informação ainda é o melhor meio de defesa do meio ambiente, por mais que possa parecer cansativo.

As contradições do etanol

"Já os impactos ao meio ambiente estão sendo ignorados pelos que defendem a substituição do peltróleo pelo álcool combustível como medida para reduzir o aquecimento global. Um dos processos de produção mais comuns é a queima da palha do canavial, para facilitar o corte manual e aumentar a produtividade do cortador de cana. Essa prática reduz custos de transporte e aumenta a eficiência das moendas nas usinas. No entanto, a queima libera gás carbônico, ozônio, gases de nitrogênio e de enxofre (responsáveis pelas chuvas ácidas) e provoca perdas significativas de nutrientes para as plantas, além de facilitar o aparecimento de ervas daninhas e a erosão. Como opção às queimadas, responsáveis por boa parte das mortes dos cortadores por meio da inalação de gazes cancerígenos, a mecanização pode ser extremamente prejudicial ao solo, pois o comprime, não permitindo a entrada de oxigênio.

"leia todo o texto completo:http://www.brasildefato.com.br/v01/agencia/nacional/as-contradicoes-do-biocombustivel

O mito dos biocombustíveis

"A propaganda do "combustível verde" ou "energia limpa" tem sido amplamente difundida no Brasil. "Usados em substituição aos derivados de petróleo, tanto o etanol quanto o biodiesel se convertem em ferramentas capazes de deter o aquecimento global", afirma texto da revista Globo Rural (Novembro, 2006).Por outro lado, já existem diversos estudos que contradizem essa idéia. Especialista em genética e bioquímica, a professora Mãe-Wan - Ho, da Universidade de Hong Kong, explica que "os biocombustíveis têm sido propagandeados e considerados erroneamente como ´neutros em carbono´, como se não contribuíssem para o efeito estufa na atmosfera; quando são queimados, o dióxido de carbono que as plantas absorvem quando se desenvolvem nos campos é devolvido à atmosfera. Ignoram-se assim os custos das emissões de CO2 e de energia de fertilizantes e pesticidas utilizados nas colheitas, dos utensílios agrícolas, do processamento e refinação, do transporte e da infra-estrutura para distribuição". Para a pesquisadora, os custos extras de energia e das emissões de carbono são ainda maiores quando os biocombustíveis são produzidos em um país e exportados para outro.

"Leia o texto completo:http://www.brasildefato.com.br/v01/agencia/analise/o-mito-dos-biocombustiveis

Etanol: combustível da exploração do trabalho no campo

"Crescem os negócios e diminuem os direitos. O argumento dos empresários e dos países ricos para o aumento da produção do etanol é o de aliviar, de uma só vez, dois grandes males do século 21: a escassez do petróleo e o efeito estufa. Além das contradições deste discurso (leia mais aqui), essa proposta não parece nada "sustentável" do ponto de vista da situação dos "corta-cana" - trabalhadores dos canaviais. "Historicamente, a produção de açúcar está associada com o trabalho escravo de índios e negros", afirma Plácido Júnior, coordenador da Comissão Pastoral da Terra (CPT) de Pernambuco.

"Leia o texto completo:http://www.brasildefato.com.br/v01/agencia/etanol-combustivel-da-exploracao-do-trabalho-no-campo

Etanol o mundo quer. O Brasil tem

"O álcool entrou na agenda de governantes, empresas de tecnologia e, principalmente, de investidores interessados nas grandes oportunidades que o setor tende a oferecer daqui para a frente. O homem mais rico do mundo, Bill Gates, fundador da Microsoft, comprou 25% da Pacific Ethanol para produzir álcool de milho nos Estados Unidos. Especula-se que Gates esteja prestes a concretizar a aquisição de uma usina de etanol no Brasil. Larry Page e Sergey Brin, do Google, estiveram em janeiro no interior de São Paulo para conhecer a produção local e analisar oportunidades. Outro bilionário, o investidor húngaro George Soros, fechou em fevereiro a compra da usina Monte Alegre, em Minas Gerais. Em 2006, o setor de etanol deve receber investimentos de 9,6 bilhões de dólares, entre construções de novas usinas, aquisições e expansões.

"Leia o texto completo: http://portalexame.abril.uol.com.br/revista/exame/edicoes/0870/negocios/m0082575.html

Etanol é ´ameaça disfarçada de verde´, dizem ambientalistas

"Metade da matéria-prima utilizada pela União Européia para produzir biocombustível é originária do Brasil, ele afirmou. Em 2005, o país exportou 50% das 538 mil toneladas de óleo de soja e palmeira que a UE comprou para este fim."Não entendemos o entusiasmo brasileiro em relação aos biocombustíveis, porque o Brasil tem grande experiência no tema, e conhece os efeitos negativos de uma má gestão da selva amazônica, que é um patrimônio da humanidade", disse Kucharz.

"Leia o texto completo: http://www.estadao.com.br/ciencia/noticias/2007/abr/19/124.htm

Álcool barato incomoda petróleo caro

A decisão brasileira, em 1975, de promover a substituição do petróleo pela chamada energia limpa e renovável do álcool da cana-de-açúcar jamais recebeu o aplauso da indústria do petróleo.

O combustível da cana, comprovadamente o melhor substituto da gasolina, é o energético mais barato de todo o mundo.

Não obstante, mesmo com a geração de cerca de 1 milhão de empregos e expectativa de gerar, com o bagaço, o correspondente a toda energia gerada por Itaipu, tem recebido acerbas críticas de diversas entidades internacionais, governos e até de ambientalistas (o álcool reduz em mais de 80% a emissão de gases do efeito estufa), embora não possua todas as impurezas conhecidas dos derivados do combustível fóssil.

Na segunda quinzena de abril, o álcool hidratado, utilizado nos veículos flex (90% da venda dos carros novos), está sendo comercializado na média das bombas dos postos de abastecimento a R$ 1,00/litro. Nas indústrias alcooleiras, as distribuidoras retiram o álcool, com o pagamento de R$ 0,70/litro.

Ademais, o álcool contribui, decisivamente, para a sensível melhoria das condições ambientais, como atesta a Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb), em São Paulo, e da saúde da população na assertiva da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).

Apesar das evidências assinaladas, existe uma verdadeira, orquestração liderada pela indústria do petróleo e pelo cartel da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), contrariamente à expansão do uso do álcool, diante dos futuros cenários dos seus novos empregos na alcoolquímica, indústria do plástico, motores de aviões e gaseificação.

Nos idos de 1973, quando foi elaborado o primeiro estudo sobre a produção alcooleira, semente do Proálcool, denominado: “A fotossíntese como fonte de energia”, sob a coordenação dos engenheiros Cícero Junqueira Franco e Lamartine Navarro Júnior, a situação não era diferente.

Com o petróleo superando US$ 120/barril e perspectivas de substanciais aumentos, a potencialidade do álcool brasileiro ameaça o gigantismo da economia do petróleo.

Para o geólogo, Márcio Rocha, antigo colaborador da Petrobrás, o cru baterá US$ 200, no fim de 2009.

Outra denúncia, que vem se acentuando, é aquela que as áreas agrícolas, destinadas ao cultivo de gêneros alimentícios, está sendo convertida à produção de matéria prima para a indústria de combustíveis renováveis, com críticas à expansão brasileira. Desta forma, promovendo o aumento do valor dos alimentos e que mais pessoas, em decorrência, passam fome.

O paradoxo existente é que as mais acentuadas críticas são oriundas das nações, que mais subsidiam a sua agricultura e criam obstáculos às nossas exportações, criando reservas de mercado.

As condições de produção alcooleira nos Estado Unidos da América (EUA) é diversa da brasileira. Na grande nação americana, as destilarias consomem nas caldeiras o gás natural e usam o milho, como matéria prima, além do combustível produzido (álcool) custar quatro vezes mais.

É impressionante, como afirmava o ex-ministro, Roberto Rodrigues, em recente palestra, como o álcool da cana brasileira não é poupado nas críticas, como se o seu uso perturbasse a oferta de alimentos, o que não é o caso.

As lideranças governamentais dos países americanos, igualmente, desconhecem as insofismáveis virtudes da agroenergia (álcool, biodiesel, bioeletricidade), como a menor emissão de dióxido de carbono (CO²). Na recente conferência anual do BID, foram apresentadas inúmeras restrições à energia renovável. No ano passado, Fidel Castro escreveu que os biocombustíveis levariam a fome ao mundo. Para o jornal New York Times: “O álcool eleva os preços dos alimentos e agrava o aquecimento global”.

Tudo isso acontece, quando as emissões globais do CO², derivados da queima de combustíveis fósseis, já superam 8 bilhões de toneladas.

Na década de 1985/1995, o consumo do álcool, entre nós, superou o consumo da gasolina automotiva, extraída do petróleo. Há dias, o mesmo sucedeu, com as vendas, no mês de março, em torno de 1 bilhão de litros de álcool anidro (25% misturado à gasolina). Já a gasolina alcançou 990 milhões de litros. Com apenas 1% das terras agricultáveis da Nação, na safra já em curso de 2008/2009, a produção alcooleira deverá superar a soma de 25 bilhões de litros, com exportações superiores a 5 bilhões de litros e geração elétrica, com o bagaço, de cerca de 3 mil MW, adicionais à atual produção.

O Brasil necessita apresentar à comunidade internacional provas convincentes das inquestionáveis vantagens da produção alcooleira para o nosso desenvolvimento sustentável e às demais nações, inclusive aos produtores do petróleo, a fim de que preservem as suas limitadas reservas por maior tempo de duração.

Outrossim, com o álcool e o biodiesel o Brasil poderá lograr, efetivamente, a decantada auto-suficiência no consumo de combustíveis, quando o consumo aumenta e o déficit na balança comercial do petróleo e derivados importados já está estimado em US$ 10 bilhões, neste ano. A balança comercial teve superávit de US$ 260 milhões na terceira semana de abril, resultado 79% menor que o do mesmo período de 2007, quando foi de US$ 1,2 bilhão e 18% inferior ao da segunda semana de abril, de US$ 319 milhões. No acumulado do ano, o superávit foi de 4,2 bilhões, de janeiro até a terceira semana de abril, 64% menor que do mesmo período de 2007, que foi de US$ 11,8 bilhões, consoante Agência Estado.

Mesmo porque, é prematuro, ainda, proclamarmos que as reservas brasileiras do petróleo, poderão ser exploradas, diante das megajazidas encontradas.

Autor: Luiz Gonzaga Bertelli
Presidente Executivo do CIEE

A Cana tornou-se a 2ª maior fonte de energia do Brasil

A cana-de-açúcar e seus derivados se transformaram na segunda fonte total de energia do Brasil, atrás do petróleo e após deslocar a hidreletricidade, segundo um estudo da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) ligada ao MME..

O feito foi obtido em 2007 e a tendência se manteve, segundo o órgão do Ministério de Minas e Energia.

"No geral, a demanda brasileira por todas as formas de energia (que no jargão técnico é chamada de Oferta Interna de Energia) cresceu 5,9% em 2007, totalizando 239,4 milhões de toneladas equivalentes de petróleo (tep). A taxa de expansão foi superior a da economia brasileira no ano passado, de 5,4% segundo o IBGE. O maior crescimento dentre todas as fontes, na comparação entre os dois últimos anos, ficou com os produtos da cana-de-açúcar, cuja oferta cresceu 17,1%. A forte expansão reflete o crescimento do consumo do etanol e o uso mais intenso do bagaço para geração de energia termelétrica.

O grande responsável por esse avanço no uso energético da cana foi o etanol, cuja demanda total (consumo interno mais exportações) foi de 20,1 bilhões de litros. Apenas o consumo doméstico de álcool hidratado apresentou aumento de 46,1%, chegando a 10,4 bilhões de litros em 2007. Suportou esse crescimento do etanol o aumento da produção de cana. A safra produziu 495 milhões de toneladas (crescimento de 15,7%), explicada, em parte, por aumento de produtividade, uma vez que a área colhida cresceu apenas 8,2%, abrangendo 6,7 milhões de hectares.

Além disso, contribuíram para a expansão do etanol a decisão do governo de aumentar de 23% para 25% a proporção de álcool anidro na gasolina “C” e a expansão da frota de veículos flex fuel, que se beneficiaram de preços médios mais baixos do que o da gasolina (em contraposição, o consumo de gasolina “pura” caiu 3,9%). A maior produção de cana significou também maior oferta de biomassa (bagaço)." diz o relatório.

Leia aqui a Integra do Estudo

Fonte: EPE

Etanol: EUA avançam em pesquisas

O Brasil pode perder a vantagem que tem no mercado de etanol. O governo norte-americano planeja investir US$ 1,5 bilhão em pesquisas energéticas em 2008. No Brasil, só agora o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) está concluindo o primeiro edital para induzir pesquisas com etanol de celulose. O orçamento é de R$ 22 milhões e a previsão é que os projetos sejam julgados e selecionados até o dia 14 de dezembro. Nem o BNDES anunciou ainda linhas de crédito para pesquisa e desenvolvimento na área.

Ainda que o Brasil tenha acumulado três décadas de experiência, ganha a corrida quem primeiro descobrir a melhor rota tecnológica para transformar resíduo em álcool. A determinação dos EUA é expressada por Helena Chum, do Departamento de Energia americano. “Temos metas a cumprir, e o principal objetivo é reduzir o custo do etanol de milho, de US$ 0,52 para US$ 0,34 por litro até 2012”, disse. Projetos de plantas-piloto vão utilizar US$ 385 milhões para produzir 863,7 milhões de litros de etanol.

Fonte:

O milho, o etanol, os ricos e a fome

Como um estudante folgazão diante de iminência de um exame final, o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, enfrenta a crise dos hidrocarbonos estabelecendo ambiciosas metas para produzir anualmente 35 bilhões de galões de agrocombustíveis até 2017. O governo Bush pisa no acelerador da produção de etanol, alarmado pelo aumento do preço do petróleo, pela instabilidade em regiões ricas em hidrocarbonos e pela crescente competição por esses recursos por potências como China e Índia. Porém, empurrado por poderosos interesses, o mandatário escolheu o milho para extrair etanol, uma opção cara, ineficiente e destrutiva.

O etanol não é intrinsecamente um mau negócio. Embora esteja em pauta desde que Henry Ford o considerou como o combustível para seu modelo Ford T, a única nação que explora seu potencial prático é o Brasil. Um amplo setor do transporte desse país utiliza etanol extraído da cana-de-açúcar, que abastece os tanques de veículos adaptados para o uso desse biocombustível, fabricados no próprio Brasil. Com uma eficácia energética oito vezes superior à do álcool obtido do milho, o etanol brasileiro teria conquistado completamente o mercado norte-americano se Washington não tivesse aplicado sobre ele uma tarifa aduaneira de US$ 0,54 por galão (3.78 litros) com a intenção de proteger o setor do milho norte-americano.

Nos últimos anos, grandes distribuidoras de alimentos como Cargill e Archer Daniels Midland pressionam a Casa Branca e o Congresso para obter generosas subvenções destinadas à produção de milho, que se somam à barreira alfandegária de US$ 0,54 por galão. O etanol de milho resulta um mau negócio em muitos aspectos. Como antídoto à mudança climática, sua contribuição é insignificante, já que emite apenas 13% menos gases causadores do efeito estufa do que a gasolina. Seus custos elevados já são evidentes para 800 milhões de pessoas que não têm alimento suficiente no mundo.

A pressão exercida pela demanda por etanol de milho causou. no ano passado. no México, aumento de 50% no preço das tortillas, a base da alimentação dos mexicanos. China e Índia começam a sofrer a inflação provocada pelo encarecimento do milho e também da soja. Os estoques mundiais de alimentos se reduzem a níveis nos quais não será possível enfrentar uma grande fome como a que secas, inundações e outros distúrbios climáticos provocam cada vez com maior freqüência.

Entretanto, o etanol de fontes não alimentares pode proporcionar significativos benefícios ambientais e econômicos e evitar a oposição, eticamente detestável, entre combustível para os ricos ou alimento para os famintos. Por exemplo, o etanol de celulose, que é obtida de dejetos de madeira e pastagem, oferece uma alternativa potencial. Considerado inicialmente há uma década, foi lento em seu desenvolvimento, pela escassez de capitais e pesquisas e por um obstáculo tecnológico substancial para obter de maneira eficaz e econômica a decomposição enzimática da complexa cadeia química da celulose em grande escala. Até hoje não se construiu nenhuma usina de etanol de celulose e esse processo enzimático continua sendo mais caro do que o do milho.

A chave para reduzir os impactos econômicos e ambientais do etanol consiste em usar dejetos de alimentos e cultivos explicitamente dedicados à produção de combustíveis em terras desgastadas ou impróprias para outras formas de agricultura. Há uma espécie de justiça poética em replantar as Grandes Planícies da América do Norte com as resistentes pastagens originárias que alguma vez alimentaram milhões de búfalos. Apesar de este tipo de produção estar muito atrás em matéria de subsídios e investimentos em relação ao milho, o etanol de celulose está começando a ganhar impulso.

Não houve nada nas últimas décadas que tenha gerado no setor privado tanto entusiasmo nem investimentos como esta produção, disse Keith Collins, economista-chefe do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos. Porém, mesmo com o milho sendo finalmente substituído pela celulose, continuaremos enfrentando o desafio de impor aos intermediários do agronegócio, uma das forças mais potentes no mundo, o alinhamento com as necessidades humanas, o que está longe de ser sua prioridade.

Ironicamente, os altos preços dos alimentos não ajudam os agricultores nem os consumidores. Como dizia uma canção popular na época da depressão nos Estados Unidos, o intermediário é quem leva tudo. O alimento deve estar, sobretudo, a serviço de um direito humano, não sendo uma simples matéria-prima que se comercializa às custas daqueles que não podem tê-la. Devemos nos conscientizar disto e estruturar um sistema de produção de combustíveis e de alimentos inspirado mais em valores humanos do que no interesse dos acionistas.


Mark Sommer - diretor do programa de rádio A World of Possibilities
Fonte:

O etanol sob fogo

Os biocombustíveis estão sob ataque. E não só por obra de Fidel e Chávez. Crescem as críticas de organismos internacionais de que a corrida para a substituição de derivados de petróleo por sucedâneos renováveis produz alta dos alimentos e problemas ambientais.

Todos os dias aparece alguém em algum fórum internacional para denunciar que o Brasil está ajudando a devastar a Amazônia ou que os canaviais estão tomando áreas antes destinadas à produção de grãos.

O relatório da FAO (Food and Agriculture Organization), ligada à ONU, que deve sair nesta semana, apontará redução dos estoques mundiais de alimentos a seu nível mais baixo em 25 anos.

Em relatório da ONU, o economista suíço Jean Ziegler, que já combateu grandes corporações, agora afirma que essa produção de biocombustíveis é “um crime contra a humanidade”.

Até o Fundo Monetário Internacional advertiu que a iniciativa pode estar “reduzindo a área agricultável e a oferta de água”. Ontem o Guardian, de Londres, publicou matéria (O apetite do Ocidente por biocombustíveis causa fome no mundo pobre) em que descreve uma profusão de horrores produzidos pelos programas de etanol e biodiesel.

A Renewable Fuels Association informa que, só nos Estados Unidos, há 129 unidades produtoras de etanol, das quais cerca de 50% começaram a produzir em 2005. Lá, a matéria-prima é o milho, que tem enormes subsídios do Tesouro americano. Mais de metade da gasolina vendida naquele país contém certa dose de etanol.

Depois que o presidente Bush lançou o programa do etanol, que se propõe a produzir 132,5 bilhões de litros etanol em 2017, os preços do milho dispararam, levando com eles os da soja, do trigo e das carnes. (Veja gráficos.) Ninguém ignora o impacto da inflação no México depois que saltaram os preços da tortilla (alimento básico), que é feita de milho.

Os preços não estão em alta só porque os Estados Unidos passaram a produzir etanol de milho, mas também porque apenas na Ásia, a cada ano, mais de 50 milhões de bocas, antes excluídas do sistema, se abrem para o mercado de consumo.

A maior parte das críticas não é sequer honesta. Usa a onda para encorpar velhas jogadas protecionistas. Além disso, o galope dos preços tem tudo para empurrar ainda mais a produção, tanto de alimentos como de matérias-primas para biocombustíveis.

A guerra de ecologistas e defensores de pobres e oprimidos contra os biocombustíveis está tomando corpo. O esforço para reduzir a dependência do petróleo (agora perto dos US$ 100 por barril) e garantir energia limpa parece sob risco. É preciso mais do que lero-lero oficial para defender o etanol e o biodiesel, dois produtos em que o Brasil é campeão.

Celso Ming
Fonte: O Estado de S. Paulo

Yes, "nois heve busu a àlcool"

A fábrica da Honeywell Turbo Technologies está capacitada a produzir no Brasil o sistema de turboalimentação para o ônibus a etanol, apresentado no último dia 23, em São Paulo, capital, e que será utilizado em testes a partir de dezembro no corredor metropolitano Jabaquara-São Mateus. O sistema atualmente instalado no veículo é o modelo GT40, da marca Garrett, similar ao usado no motor Scania a diesel, de 9 litros, que atende aos padrões de emissões Euro IV, que entrará em vigor no Brasil em 2009.

De acordo com Christian Streck, gerente de engenharia da Honeywell, a tecnologia do sistema de turboalimentação para o etanol é semelhante à usada em motores a gás, nos quais a Honeywell tem experiência desde 1999. Naquele ano, a empresa brasileira deu início ao fornecimento de turbos para a DaimlerChrysler, que exportou a primeira série de motores para equipar os ônibus do programa EvoBus, utilizados no transporte urbano de Hannover, na Alemanha.

O ônibus movido a etanol foi apresentado pelo Cenbio (Centro Nacional de Referência em Biomassa), da USP, e faz parte do projeto BEST (BioEthanol for Sustainable Transport-Etanol), que tem a missão de demonstrar a viabilidade do uso do etanol no transporte público urbano. O programa é incentivado pela Comunidade Européia e pela Prefeitura de Estocolmo e também conta com a participação de entidades brasileiras, como a Marcopolo, que produziu a carroceria, Baff/Sekab, Copersucar, EMTU, SPTrans, Única e Petrobrás.

O principal argumento para a viabilidade do projeto é o ambiental. Segundo dados do BEST, o uso do etanol reduz em mais de 80% as emissões de gases responsáveis pelo aquecimento global e em 90% a presença de materiais particulados causadores da poluição do ar.


Fonte: GuarulhosWeb

Mandioca doce é nova opção para etanol

A Embrapa identificou, em meio às suas pesquisas como fontes alternativas de energia, uma variedade de mandioca ideal para a produção de etanol, mas que hoje não é produzida em escala comercial. Nativa da região amazônica, a variedade é conhecida como mandioca doce e tem como diferencial o fato de produzir açúcar em vez de amido.

No país, algumas empresas realizam tentativas com o etanol de mandioca. Entre 1978 e 1983, a Petrobras produziu o combustível em uma destilaria no Maranhão, que hoje produz álcool a partir do babaçu. Empresários pernambucanos também anunciaram neste ano investimento em micro-destilarias com álcool de mandioca naquele Estado.

De acordo com Manuel Cabral, coordenador-geral da Embrapa Recursos Energéticos e Biotecnologia, as indústrias adotam um processo químico para quebrar as moléculas de amido da mandioca e convertê-las em açúcar para, em seguida, fazer a fermentação, que converte o açúcar em álcool. "Esse processo exige o uso de enzimas que são muito caras. A vantagem da mandioca doce é que ela dispensa a primeira etapa e, por isso, o custo industrial é menor".

A variedade, mais arredondada e com aparência similar à batata-doce, é pesquisada pela Embrapa desde 1999. Neste ano, a estatal iniciou os testes de campo em diferentes regiões do país para avaliar a sua adaptabilidade a diferentes condições de clima e solo. "Em laboratório, já produzimos o melaço, que é bastante semelhante ao melaço da cana. Agora vamos produzir o etanol em laboratório", diz. A expectativa , segundo ele, é obter os primeiros resultados dos testes de campo já no próximo ano. "Como é uma variedade nativa e não-transgênica, a liberação para uso comercial será simples".

Ainda na área de energia limpa, a Embrapa desenvolve variedades de cana-de-açúcar transgênicas resistentes à seca e tolerantes a insetos e pragas. A expectativa da estatal é que as novas variedades cheguem ao mercado dentro de seis anos.

Além da mandioca e da cana, a Embrapa negocia com países da África a importação de oleaginosas que apresentam resistência natural à seca. O objetivo é avaliar a sua adaptação no Brasil para a produção de matérias-primas voltadas a biocombustíveis.

Fonte:

Milho VS. Cana

O "New York Times" publicou o editorial "Repensando o etanol", cobrando mudanças nos subsídios ao álcool de milho produzido nos EUA. Nele, questiona seguidamente o milho, mas não menciona a cana. Já o canadense "Globe and Mail" deu a coluna "É hora de matar os subsídios ao milho e aceitar o Brasil" (go Brazilian).
De outra parte, a agência Ansa e outras ecoaram notícia do "Valor", de que a reunião entre o chanceler Celso Amorim e a representante comercial dos EUA, Susan Schwab, hoje e amanhã em Roma, vai negociar a tarifa imposta sobre o etanol importado do Brasil.
Nelson de Sá, Folha de S.Paulo, 13/05/08

Etanol será combustível de 25% dos carros em 2050, diz AIE

Um quarto dos carros no mundo estarão sendo movidos à etanol até 2050. A estimativa é da Agência Internacional de Energia, com sede em Paris. Segundo a entidade, 700 milhões de toneladas de biocombustíveis estarão sendo vendidos em meados do século.

Nesta terça-feira (13) em seu relatório mensal, a AIE apontou para uma verdadeira "explosão" no uso do etanol. Hoje, se o lobby contra o etanol saísse vencedor, o mundo teria de produzir 1 milhão de barris a mais de petróleo para suprir o espaço que o etanol deixaria apenas nos Estados Unidos e Europa.

"O volume de petróleo que seria necessário para cobrir o déficit causado por uma eliminação do etanol seria enorme", afirmou a AIE. Governos em todo o mundo vem sendo atacados por suas políticas de expansão do uso do etanol, acusados de estar gerando a alta nos preços dos alimentos. Alguns, como o ex-relator da ONU para o Direito à Alimentação, Jean Ziegler, chegaram a pedir uma moratória na produção do etanol.

O ano deve terminar com o fornecimento de 1,5 milhão de barris de etanol por dia. Entre os países que não fazem parte da Opep, a produção de etanol mais que dobrou entre 2006 e 2008, passando de 214 mil barris por dia para 425 mil. Só na América Latina, a previsão é de 186 mil barris de etanol. Em 2007, 49% do crescimento do abastecimento de combustível nos países fora da Opep já ocorreu graças ao etanol. Em 2008, a taxa deve ser de 55%.

A entidade insiste que uma diferenciação entre o etanol de cana-de-açúcar e o etanol de milho deve ser feita. "O etanol de cana produzido nas regiões tropicais e subtropicais como Brasil, África e Índia tem excelente características em termos econômicos, de redução de CO2 e baixa exigência de terras", afirmou a AIE, que garante que o etanol tem um papel importante no combate às mudanças climáticas.

A AIE aponta que os biocombustíveis ainda podem ajudar os países a substituir a importação de petróleo e diversificar as fontes de energia de um país. Mas a agência admite que há certos biocombustíveis, como aqueles produzidos a partir de grãos e milho nos Estados Unidos e Europa, que podem representar uma ameaça para a produção de alimentos. Mesmo assim, a entidade alerta que apenas 2% da produção mundial desses grãos é hoje destinada ao etanol.

Para garantir que efeitos negativos não se proliferem, a AIE pede que os governos incentivem as pesquisas sobre a segunda geração do etanol, feito a partir de produtos que não teria um impacto sobre a disponibilidade de alimentos.

Demanda - O relatório da Agência aponta ainda que a alta nos preços do petróleo e a desaceleração da economia americana e européia devem gerar uma queda na demanda pelo combustível. Segundo a Agência Internacional de Energia, o mercado de petróleo registra um superávit nos últimos dois meses, tendência que deve se manter por todo o ano. A revisão da demanda acabou gerando uma queda no preço do petróleo nos mercados nesta terça.

O consumo deverá aumentar em 1,03 milhão de barris por dia em 2008, 230 mil a menor que a previsão anterior. Essa não é a primeira revisão dos números feito pela AIE. Em julho, a estimativa era de que o consumo seria o dobro da atual previsão. Novos cortes não estão descartados.

A demanda nos países emergentes continua forte. Segundo a AIE, essa demanda deve crescer em 3,7% em 2008, contra 1,5% na média mundial. A alta nas economias emergentes será de 1,4 milhão de barris por dia, consumo liderado pela China.

O problema é que os países ricos terão contração de sua demanda pelo terceiro ano consecutivo. Só nos Estados Unidos, a queda será de 2,1%, com um consumo total de 20,4 milhões de barris por dia. Para a agência, uma manutenção dos preços agora dependerá da Opep e de se os países estarão dispostos a manter os atuais níveis de produção.

Segundo os analistas, um dos fatores que fez com que o barril chegasse a US$ 125,00 foi a competição entre aqueles que estariam comprando para fazer estoques e os consumidores pensando no uso imediato.

Fonte:

Do:

terça-feira, 13 de maio de 2008

Cana não ameaça produção de alimento

Especialistas afastam risco de crise agrícola com aumento do cultivo para fabricação de álcool

Uma repetida falácia já se tornou alvo de chacotas entre os estudiosos e especialistas do mercado de etanol. Trata-se da idéia de que poderia ocorrerumacrise agrícola e de oferta de alimentos caso a cana-de-açúcar invadisse áreas hoje ocupadas por pastagens e lavouras. Nos últimos meses, alertas de governos no exterior — como o venezuelano e o cubano — centraram fogo nos riscos da falta de alimentos no país se o Brasil plantar cana demais. No entanto, cálculos mostram que um cenário como esse está bem distante de acontecer e, mesmo que certos desequilíbrios ocorram, há um consenso entre estudiosos de que as regras naturais do mercado — de oferta e demanda de produtos — levarão à estabilidade natural do setor.

“É uma bobagem tremenda, imensa”, diz Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura e copresidente da Comissão Interamericana de Etanol. “Nós podemos perfeitamente explorar esse novo mercado de biocombustíveis de forma organizada, dentro de uma estratégia de crescimento organizada e bem planejada, com apoio de poder público e iniciativa privada”, diz Rodrigues. Para desmistificar o “ecobesteirol”, Rodrigues dá os números. Segundo ele, o Brasil tem 90 milhões de hectares aptos para novas plantações agrícolas. Deste total, 22 milhões de hectares podem ser ocupados pela cana-deaçúcar no futuro, por conta de condições climáticas e de solo favoráveis. Mesmo que todo esse espaço venha a ser ocupado, sobrariam, portanto, ainda 68 milhões de hectares para a cultura de diversos tipos de alimentos.

Os especialistas vão mais longe nas contas. Se o Brasil, o segundo maior produtor de etanol do mundo — perde apenas para os EUA — quiser substituir 10% de todo o consumo de gasolina no globo pelo etanol brasileiro, precisaria plantar mais 24 milhões de hectares de cana, de acordo com estudo que está sendo elaborado por técnicos do Centro de Gestão de Estudos Estratégicos (CGEE). Ou seja, grosso modo, bastaria ocupar as pastagens que já foram identificadas no país como aptas para a plantação no futuro para que a meta dos 10% seja alcançada. “Ao se levarem em conta os possíveis ganhos tecnológicos que podem ser obtidos a médio prazo na produção, o tamanho da nova área a ser explorada seria menor, de 14,4 milhões de novos hectares. Nós temos terra para isso”, afirma Lúcia Carvalho Pinto de Melo, presidente do CGEE.

“Precisamos analisar esse tema com isenção, sem grandes paixões. Não haverá uma produção de cana descomedida no país “, afirma Melo. O projeto do órgão, coordenado pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), foi iniciado em 2005, em parceria com o Ministério da Ciência e Tecnologia. A meta do trabalho é preparar o país para expandir a produção de etanol, de forma sustentável, e abastecer os mercados externo e interno.

OBrasil deverá colher, na safra de 2007, 6,7 milhões de hectares de cana-de-açúcar, segundo dados previstos em abril pelo IBGE. É uma alta de 8,9% em relação ao ano anterior. A colheita do produto deverá somar 513 milhões de toneladas — o que representa uma elevação de 12,7% em comparação a 2006. Desse volume de 6,7 milhões previstos, metade será cana para a produção de açúcar e a outra metade, para etanol. É possível afirmar, portanto, que empouco mais de 3,3 milhões de hectares de cana colhida, o Brasil produz 17 bilhões de litros de etanol — a segunda melhor marca no mundo (os EUA estão produzindo 19 bilhões de litros).

Todo esse álcool deve sair das usinas brasileiras, que se propagam pelo interior do país. O Ministério de Minas e Energia informa que há 325 usinas de álcool em operação no Brasil hoje. Até o final de 2007, 17 entram em operação e, para 2008, serão mais 26 usinas, boa parte com dinheiro da iniciativa privada, que descobriu como lucrar nesse filão.

Esse volume crescente de usinas pipocando pelo país fez alimentar os temores em torno de um possível desequilíbrio no mapa agrícola brasileiro. Com o assunto etanol na ordem do dia, pecuaristas e agricultores começaram a olhar esse mercado como chance rara de ganhar dinheiro. A região do Centro-Oeste, por exemplo, deve elevar a produção de cana em 14,5% em 2007, relata o IBGE. O Mato Grosso do Sul, forte na pecuária bovina, puxa essa alta, com expansão de 35% na área a ser destinada para a cultura da cana neste ano.

Mesmo com esse crescimento, na avaliação de José Goldemberg, ex-secretário estadual de Meio Ambiente, não há razões para alarmes por duas razões principais. Em primeiro lugar, para ele, é preciso levar em conta a baixa produtividade da pecuária de corte brasileira. Existiam 225 milhões de hectares explorados pelos pecuaristas em 2006, com cerca de 207 milhões de cabeças bovinas, relata o IBGE. Isso é menos de uma cabeça por hectare e, também, um indicativo de que há terras a serem mais bem exploradas pelo país, sem que seja preciso uma diminuição no tamanho do rebanho brasileiro, afirma ele.

Além disso, há uma segunda questão importante, salientada por Goldemberg e pelos especialistas envolvidos nesse debate. Agrônomos e economistas concordam em que o risco de um desequilíbrio no sistema agrícola será controlado pelas regras básicas de mercado. Em outras palavras, é a lei da oferta e da demanda que trará estabilidade ao mapa agrícola brasileiro. “Se todos plantarem cana, vai ter produto demais, o preço cairá e, meses depois, o agricultor vai perceber que já não vale tanto a pena o cultivo e, então, volta a plantar qualquer outra coisa. O açúcar, inclusive, já caiu de preço nos últimos tempos e pode cair mais, e a soja está subindo de novo”, diz Roberto Rodrigues. “É o mercado que manda e que trará harmonia para o sistema”, afirma.

Na avaliação de Oscar Braunbeck, professor da Faculdade de Engenharia Agrícola da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), ganhos de produtividade podem ser alcançados nas áreas onde já existe a cultura da cana. São Paulo é o maior Estado produtor, com previsão de atingir 295 milhões de toneladas de cana produzidas em 200, uma alta de 11% em relação a 2006. O aumento de produtividade no campo desde os anos 70, atinge uma média de 4% ao ano, relata Lúcia Melo, do CGEE. “Existe uma possibilidade de aumentarmos a mecanização na produção da cana. Isso já elevaria nossos ganhos nas áreas já exploradas. Cerca de 70% do corte da cana no país ainda é manual”, afirma Braunbeck. Como efeito desse processo, a mão-de-obra precisaria ser remanejada para a cultura de outros itens agrícolas, sob pena de uma elevação do desemprego.

Nos anos mais recentes, particularmente 2004 e 2005, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do IBGE, captou um contingente de cerca de 500 mil empregados ocupados na cultura da cana-de-açúcar no Brasil. Avanços tecnológicos levariam à necessidade de recolocar parte dessa massa de trabalhadores. Para Roberto Rodrigues, um dos caminhos para amenizar riscos sociais seria utilizar terras com topografia irregular — terrenos mais inclinados, onde há a cultura da cana, para a produção de outros tipos de produtos. “Em 10% a 12% das terras ocupadas pela cana no país não dá para utilizar máquinas por causa da topografia. O trabalho é manual. Nessas regiões, é possível usar a mão-deobra na plantação de frutas, extração de borracha ou produção da madeira, mantendo o emprego e levando os agricultores a atuarem numa cultura mais nobre e produzirem itens de maior valor também”, aconselha ele.

Os presidentes Hugo Chávez, da Venezuela, e Fidel Castro, de Cuba, por razões políticas e econômicas, já se posicionaram de forma contrária à expansão na produção de etanol no Brasil.

A Venezuela é um dos maiores produtores de petróleo do mundo. Em março, Chávez disse que “a substituição da produção de alimentos para a população para a produção de alimentos para carros [o combustível etanol], como forma de dar sustentação ao ’american style of life’, é uma coisa de loucos”. Fidel Castro foi na mesma toada. O presidente cubano afirmou, há dois meses, que “a idéia de usar alimentos para produzir combustível é trágica e dramática”. Foi mais longe ao afirmar que essa é “mais uma das tragédias que acontecem neste momento”.

Fonte: